Na última terça-feira, uma atendente do posto do INSS no centro de São Paulo me contou uma cena que se repete há meses. Uma senhora de 73 anos chegou chorando porque havia perdido o prazo de uma perícia médica. Não recebeu o SMS de confirmação. Não atendeu a ligação do órgão porque o número exibido na tela parecia idêntico ao de um golpe que a filha havia alertado. Quando finalmente ligou para o 135, a vaga já tinha sido repassada. O benefício, suspenso. A perícia, remarcada para daqui a quatro meses. Tudo porque o sistema de identificação de chamadas — aquele que deveria nos proteger — foi transformado em arma contra ela.
É nesse ponto que a recente ação da Anatel deixa de ser apenas uma estatística de telecomunicações e se torna um capítulo da luta por inclusão digital. O bloqueio de 4 milhões de chamadas com números adulterados no último ciclo de fiscalização não é só um número: é a resposta institucional a um mecanismo que opera na fronteira entre o crime cibernético e a exclusão social.
Como a fraude funciona — e por que ela atinge quem menos pode se defender
A adulteração de chamadas, tecnicamente chamada de spoofing, não é um erro de sistema. É um recurso explorado deliberadamente por centrais clandestinas que se conectam às redes de operadoras legítimas. O número que aparece no visor do celular — seja o 135 do INSS, o 4002 de um banco ou o ramal de um hospital — é fabricado. A vítima atende confiando na identificação. Do outro lado, um atendente treinado para simular sotaque institucional, com scripts que imitam procedimentos reais, conduz a conversa até o ponto em que pede dados, senhas ou transferências.
O que a Anatel bloqueou não é a chamada em si, mas a rota que a transporta. O trabalho consiste em identificar centrais que se passam por operadoras reguladas e cortar sua conexão com a rede. É um jogo de gato e rato: quando um caminho é fechado, os fraudadores migram para rotas internacionais ou para serviços de VoIP não regulados. A diferença é que, agora, cada bloqueio exige que eles reconstruam a infraestrutura — o que encarece a operação e reduz o volume.
O caso concreto que a estatística esconde
Voltemos à senhora do posto. Ela não é um número. É uma pessoa que perdeu quatro meses de um benefício essencial porque o sistema de identificação de chamadas — que deveria ser uma camada de segurança — virou uma armadilha. O prejuízo não é só financeiro: é a perda de tempo, a humilhação de recomeçar um processo, o medo de atender o telefone. Esse é o custo material da fraude que a Anatel tenta conter. E é por isso que a ação regulatória, sozinha, não basta.
Quem mais sofre: os rostos da exclusão telefônica
A fraude telefônica não atinge a todos da mesma forma. Ela encontra terreno mais fértil onde a informação circula com menos velocidade, onde o acesso à tecnologia é mais recente e onde a confiança nas instituições é maior. Não por acaso, os maiores alvos são:
- Idosos que aprenderam a usar o celular para se conectar com filhos e netos, mas não foram educados a desconfiar da tela;
- Pessoas com deficiência visual ou auditiva que dependem do telefone como principal canal de contato com serviços públicos;
- Trabalhadores informais que recebem ligações de cobrança e não têm tempo hábil para verificar a autenticidade;
- Moradores de periferias e zonas rurais onde a única conexão confiável é o celular pré-pago, muitas vezes sem acesso a aplicativos de verificação.
O ciclo da desconfiança
Há um efeito colateral que poucos discutem: a fraude ensina as pessoas a não atenderem o telefone. E isso tem um custo social imenso. Quando um idoso deixa de atender uma chamada legítima do INSS porque aprendeu que “número parecido com o do governo é golpe”, ele está sendo excluído de um direito. Quando uma pessoa com deficiência perde uma consulta médica porque o hospital ligou de um número que ela não reconheceu, o sistema de saúde falha. A desconfiança generalizada é o oposto da inclusão digital: é a desconexão forçada.
O que a Anatel fez — e o que ainda falta
O bloqueio de 4 milhões de chamadas é um avanço inegável. Ele mostra que a regulação pode ser ágil e que as operadoras têm responsabilidade sobre o tráfego que transportam. Mas a ação é paliativa se não vier acompanhada de três medidas estruturais:
- Autenticação obrigatória de chamadas — um sistema que valide criptograficamente a origem do número, como já existe em outros países;
- Educação digital para públicos vulneráveis — não apenas “não clique em links”, mas uma formação que ensine a verificar canais oficiais e a usar aplicativos de identificação;
- Canais alternativos de comunicação — notificações por carta, e-mail ou aplicativo para quem não confia mais no telefone.
Enquanto isso, a sociedade civil faz o que pode. O Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) tem pressionado por mais transparência das operadoras. A própria Anatel já sinalizou que estuda exigir das teles um sistema de verificação em duas etapas para chamadas de instituições financeiras e órgãos públicos. É pouco, mas é um começo.
Inclusão é poder atender o telefone sem medo
Quando pensamos em acessibilidade, logo vêm à mente rampas, legendas, leitores de tela. Mas há uma forma de inclusão que passa despercebida: o direito de usar o telefone sem ser enganado. O direito de confiar que o número que aparece no visor é real. O direito de não precisar de um curso de segurança digital para marcar uma perícia médica.
A fraude telefônica é, portanto, uma questão de direitos humanos. Ela ataca a autonomia, a dignidade e o acesso a serviços básicos. Combater esse crime não é só prender quadrilhas: é garantir que a tecnologia — que deveria aproximar — não se torne mais um muro entre as pessoas e o Estado.
A senhora do posto de INSS não deveria ter perdido quatro meses de benefício. Nenhum de nós deveria. E é por isso que cada chamada bloqueada é, também, um ato de inclusão.
📚 Recomendação Editorial de Leitura:
Para entender como a tecnologia pode ser uma aliada ou uma barreira para a inclusão de idosos e pessoas com deficiência, recomendo “Idosos e Tecnologias Digitais: Inclusão, Acessibilidade e Direitos”, uma obra que mergulha nas políticas públicas de telecomunicações e no cotidiano de quem enfrenta a exclusão digital.





